{relato de parto} – Nascimento João e Luana

Por: Sharllyne Nascimento

onda da contração

Sempre quis ter quatro filhos, porém jamais imaginei que meu desejo iria se concretizar de maneira tão especial.
Acredito que quando uma mulher engravida, é uma maneira do universo dizer que confia a ela a vida de outro ser, mas e quando são gêmeos? Gestar, nutrir e parir duas vidas é redentor, é uma experiência única!
Quando descobri, por volta das 6 semanas, que estava grávida de gêmeos tremia, sorria, o coração bateu mais rápido, e eu só tentava imaginar como seria ter quatro filhos!
Passado susto da surpresa, comecei a me preocupar com o nascimento, sim desde o começo era essa minha maior preocupação, claro que gostava de ver sobre o enxoval, mas confesso que o mundo do parto e sua fisiologia me atraem muito mais. Estava então disposta a abrir mão do plano de saúde, pois sabia que no SUS eles priorizam o parto normal, infelizmente foi em um posto de saúde que sofri uma grande decepção, o obstetra que me atendeu, foi muito ríspido e enfatizou que ao final do pré natal eu sairia com o pedido da cesárea. Tentei argumentar, e a cada palavra minha aquele senhor além de me desencorajar, começou a falar em um tom ameaçador, me dizia ser irresponsabilidade um parto normal gemelar, assustou – me como pode falando de complicações neonatais, entre outras coisas que não valem a pena serem ditas. Saí chorando, porém com a certeza de que buscaria apoio e respeito de um médico baseado em evidências.

Em um grupo de rede social, conheci a Carol Ramos, que se apresentou como doula, marcamos um encontro, e não deu outra, conversamos por horas. Falamos sobre os médicos humanizados de Brasília, e como eu poderia começar minha busca. Estava apenas com 9 semanas.

Ainda insisti mais 3 vezes com obstetras diferentes, todos pelo convênio, em vão.
Foi quando conversei com Adele e pedi umas dicas, ela falou a respeito da Dra Caren Cupertino, mandei mensagem, não só pra ela como também para vários médicos humanizados, somente ela me respondeu, marquei a primeira consulta, contudo antes queria mostrar ao meu esposo o outro lado do parto. Apesar de já ter parido duas vezes, ele nunca pode me acompanhar, sofri violência obstétrica, meu parto anterior havia sido extremamente traumático, cheio de intervenções desnecesárias e por isso precisava mostrar para ele o quanto era importante para mim e principalmente para os bebês um nascimento respeitoso. Comprei o documentário O Renascimento do Parto e um dia antes da consulta, assistimos. A partir daí não existiam mais dúvidas, queríamos receber nossos filhos de forma digna, o filme foi um divisor de águas, a base para nosso empoderamento.
Lembro -me até hoje quando entramos no consultório da Dra Caren, a qual nos recebeu sorrindo e de maneira gentil, a conversa se desenrolou fácil, tirei todas as dúvidas que me recordava naquele momento, fui examinada e ao final da consulta tinha a convicção, de querer parir com a assistência daquela mulher de fala delicada, mas firme em suas respostas.
E assim seguimos, das 17 até as 28 semanas, apesar da descoberta do hipertiroidismo, tudo ia muito bem, quando em uma ecografia vimos que os dois bebês estavam sentados. E agora? Mais estudos, mais pesquisas, e mais uma consulta cheia de dúvidas e esclarecimentos, foi-me mostrado os riscos e possíveis consequências de um parto pélvico, a Doutora chegou a dizer que apesar de não ser indicação de cesárea ela poderia ser necessária. Fiquei um pouco chateada, porém determinada a ler tudo a respeito. Conversava muito com a Carol, que tratava de me acalmar e tentava buscar alternativas para que meu sonho não morresse por ali. Eu tinha que me sentir segura com qualquer decisão que eu tomasse e justamente por isso me cerquei apenas de pessoas a favor do Parto, afastei-me de muita gente, naquele momento era importante essa espécie de reclusão.
Com 32 semanas decidi em cima da hora fazer uma sessão de fotos com a Juliana Matos, estava um pouco desanimada e cansada, mas foi uma tarde ótima, conheci uma pessoa muito especial, a Joo é dessas “meninas” que a gente gosta logo de cara, tem o dom de te arrancar sorrisos, até brincou dizendo que não abria mão de registrar meu parto, e eu levei mesmo na brincadeira, só depois descobri que ela falava sério.
As semanas passavam e comecei a sentir muitos incômodos e dores, era impossível dormir, ou se quer deitar, estava exausta e foi em outra ecografia para descartar o encurtamento do colo uterino, que se constatou a permanência do G1 pélvico, e a cambalhota da G2 que tinha ficado cefálica… lembrei imediatamente do que o médico do SUS havia dito sobre um tal entroncamento de cabeças, não vou mentir fiquei com medo seria essa a sentença da cesariana?

Na consulta seguinte Dra Caren me falou sobre a Taiza, sobre sua experiência em acompanhar partos pélvicos e até de gêmeos, que se eu topasse falaria com ela pra também me assistir, pelo fato de ser uma doula mais experiente, Carol não viu impedimentos e nós duas concordamos. Com 34 semanas conheci a Taiza em mais uma consulta que agora eram quinzenais, nos entendemos bem falamos sobre muitos assuntos e me senti segura com ela. Já com 36 semanas e com a permanência do G1, sentado Carol foi comigo no pré natal e sanamos todas as dúvida que ainda existiam, Dra Caren explicava tudo nos mínimos detalhes, das condições para que um parto pélvico acontecesse, novamente falou dos riscos, e como sempre me senti segura, sabia que estava em boas mãos, e tinha certeza que iria parir.
Chegamos a termo, 37 semanas, uma vitória numa gestação gemelar, pedia a Deus todos os dias pra entrar em trabalho de parto, falava sempre com a Carol, a Taiza e com a doutora, já estávamos achando que os bebês viriam apenas em 2015, antes do Natal tive mais uma consulta, tudo ótimo com a gestação, apesar de eu mal conseguir andar.
No dia 28/12/14 recebi uma mensagem da Doutora Caren perguntando como estavam as coisas, se os bebês estavam se mexendo, sobre as dores, falei que estava tudo bem, aliás melhor do que em dias anteriores, era domingo a tarde na segunda feira teria mais uma consulta… anoitecendo comecei a sentir algumas cólicas, não dei muita importância porque há mais de um mês era assim todas as noites. Por volta das 20h com contrações que eu ainda imaginei serem as de treinamento, por desencargo de consciência resolvi cronometrar a frequência, estavam bem irregulares a cada 30 ou 20 minutos e não duravam mais que 30 segundos. Todos em casa foram dormir, falei pro marido que eu achava que estava sentindo algo diferente, mas ele podia ir dormir qualquer coisa eu chamaria. Fiquei no sofá pois apenas ali conseguia tirar uns cochilos, quase 22h mandei mensagem pra Carol, avisando o que estava acontecendo, ela pediu pra deixá-la atualizada da progressão.
Já na madrugada resolvi tomar um banho quente já que as dores não haviam cessado, novamente verifiquei as contrações que já estavam bem mais incômodas, vinham a cada 15 min, 18 min e duravam as vezes 50 segundos, era mesmo trabalho de parto, fiquei em quatro apoios em cima do sofá mesmo, porque sentia muita pressão lá em baixo, cheguei a dormir nessa posição, acordei com uma forte cólica, já estava amanhecendo, Carol havia mandado mensagem mas eu não tinha visto. Mais um banho, todos ainda dormiam, usei um aplicativo pra ver direitinho como estavam as contratações que nesse momento não me deixavam sentar direito. Ainda estavam irregulares, porém bem mais intensas e duradouras. Respondi a Carol e mandei mensagem pra Taiza, também avisei a Dra Caren que perguntou da regularidade e intensidade. Apesar de ainda irregulares por volta das 8h da manhã estavam sim fortes. Como nesse mesmo dia tinha consulta, e iria deixar os filhos mais velhos na casa da avó, resolvi acordar a todos e fazer tudo com calma, meu marido não acreditou muito que nasceriam naquele dia, pra falar a verdade nem eu, já havia me acostumado com as dores e até pensei que fossem pródomos, por precaução coloquei as malas da maternidade no carro, lembro do marido perguntando se era mesmo necessário, eu estava muito calma, curtindo cada contração.
Deixamos as crianças na minha sogra e fomos pra consulta, pedi que ele dirigisse devagar porque qualquer movimento mais brusco fazia com que as dores fossem mais intensas. Chegamos por volta do meio dia, Taiza já estava lá, fiz o primeiro toque de todo pré natal e 5 cm! As contrações já estavam a cada 8 min, saímos do consultório com os papéis da internação. Ninguém ainda tinha almoçado, mesmo em trabalho de parto fomos comer há uns 200 metros do hospital, avisei a Carol que eu estava com 5cm e indo almoçar, depois ia pra maternidade. Com contrações a cada 5min tentei comer o que pude, e logo fomos pro hospital, a pé, o caminho parecia interminável, parei várias vezes pra respirar fundo em cada contração. Após a internação avisei minha mãe, depois Dra Caren chegou dizendo que a Juliana Matos já estava a caminho.
O clima era tranquilo, eu estava bem, apesar de as contrações ficarem cada vez menos espaçadas, estava consciente de tudo. Equipe completa, e mais uma vez o chuveiro quente era minha opção, relaxei bastante devo ter ficado por horas lá, recebi massagens da Carol, Taiza me acalmava, lembrando-me de respirar, enquanto tocavam lindas músicas que a Joo tinha no celular, entrei na partolândia!!!
Tudo era meio desconexo, ouvia o que as pessoas diziam, e muitas vezes não conseguia, ou não queria responder, pediram pra eu sair da água quente porque as contrações estavam muito perto uma da outra, mais um toque acho que estava com dilatação total, não ouvi o que disseram, descemos para o centro obstétrico, eu estava com vontade de fazer xixi, Dra Caren colocou a banqueta e pediu para que todos saíssem pra ver se eu conseguia, assim que sentei senti um puxo e dei um grito, tá nascendo! Todos entraram quase correndo na sala, Juliana pediu calma, meu esposo sentou atrás de mim, e toda equipe sentou no chão a minha frente, Dra Caren avisou que o João Lucas estava nascendo empelicado, perguntou se eu queria tocar, não consegui, então a Juliana tirou uma foto e me mostrou, era o pezinho nascendo dentro da bolsa, parecia um bola de cristal. Senti arder muito, e os puxos eram involuntários, o corpo fazia força sozinho, o expulsivo foi lento, aos poucos o corpinho foi saindo, por último a cabecinha que ardeu pra caramba, e meu filho nasceu 19:13 com 2,860kg e 46,5cm, veio pros meus braços já com os olhinhos abertos, pude admirá-lo por um tempo, ele chorou e tanto o Neonatologista quanto a Caren sorriram, pois ele havia nascido muito bem, meu marido cortou o cordão, após mais alguns minutos o levaram, para o primeiro atendimento pediátrico, foi o tempo para que as contrações voltassem, a bolsa da minha princesa rompeu e quase não deu tempo do pai ver Luana nascer, ou melhor assim que ele voltou com João Lucas, minha pequena nasceu às 19:26 pesando 2,565 kg e 46cm, com um chorinho lindo, toda dengosa fez até xixi em mim. Admirei seu rostinho delicado, entregaram-me o João e eu mal podia acreditar em tudo aquilo que havia acabado de acontecer…
Depois de alguns minutos levantei e fui andando para maca aguardar o nascimento das placentas, com muita paciência e enquanto tentava colocar meus bebês pra mamarem, elas também nasceram, íntegras e diferente do que se via nas ecografias, não estavam fundidas.
Meus pequenos não passaram por nenhum procedimento desnecessário, nada de colírio, ou aspiração das vias aéreas, Apgar 9 / 10, chegaram no dia 29/12/2014, no dia do aniversário da minha mãe, que apesar de não estar na hora do parto, apoiou-me desde o primeiro momento, foi quem estava comigo quando descobrimos serem gêmeos, hora ou outra não compreendia minha busca e meus anseios, porém sempre respeitou minhas decisões.
Meu parto gemelar foi redentor, superei traumas e finalmente pude parir naturalmente, agradeço as minhas doulas por todo apoio antes e durante o parto, apesar de muitos questionarem, eu nem lembrei que existia analgesia, vocês foram meu alívio na hora da dor, meu marido que apoiou do começo ao fim, e principalmente a Dra Caren Cupertino, por acreditar que eu poderia parir.

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